Olá amigos, este é nosso primeiro post do ano de 2010 e, por isso, muito especial. Trazemos uma entrevista com o gaitista e luthier Rafael Domingos, que tem feito um grande trabalho como luthier, a faceta que muitos já conhecem, mas que se mostra também como um gaitista de mão cheia, com a experiência de ter estudado em grandes universidades como Bituca (Barbacena/MG) e UniRio (RJ).  Na entrevista ele conta um pouco sobre estas duas facetas e sobre seu esforço em inserir a gaita nas academias de música às quais participou.

Não quero me prolongar mais, apenas agradecer o carinho dedicado pelo Rafael em responder a estas perguntas para nosso blog.

BLOG CROMATISMO - Para iniciar uma pergunta que gosto de fazer para todos que se aventuram no Cromatismo: porque você optou pela diatônica e não simplesmente usa cromática para obter as notas ‘ausentes’?

Rafael Domingos – Essa pergunta me remeteu ao despertar do meu interesse pela harmônica, seja ela cromática ou diatônica. E essa história está relacionada a uma transmissão que se deu entre gerações de uma mesma família.
Pois bem, nos tradicionais encontros de domingo na casa da minha avó paterna, tinha um encontro marcado para além do familiar, encontro este que se dava com a música. Isso por que um dos meus tios sempre tocava uma cromática, o que me afetou, no sentido de um interesse em aprender tal instrumento. Ficava observando cada movimento labial, cada nota produzida, até que no meu aniversário de 14 anos ele me presenteou com uma cromática. Foi um entusiasmo só…a aproximação com o instrumento aos domingos, agora estava colocado para mim de modo permanente, pois desde então a gaita não saiu do meu cotidiano, do meu bolso, da minha vida.
A surpresa veio quando me deparei, após um ano e meio, com a gaita diatônica. Ela me foi apresentada por um amigo juiz-forano (Leandro Gouveia), que na época também estava iniciando seus estudos com o instrumento. Apaixonado pelo tamanho reduzido e pela sonoridade da diatônica, logo me interessei. E diante dessa minha curiosidade em tocá-la, esse mesmo amigo me deu uma das suas.
Aí se colocou mais uma questão para mim – que algum tempo depois se tornou um dos meus alvos de estudos e trabalho – a gaita estava com duas palhetas trincadas. Naquela época, o instrumento ficou inutilizado, após algumas tentativas de tocá-lo e também de esforçar-me por consertá-lo.
Como o desejo de tocar era inquietante, resolvi pedir uma diatônica à minha mãe, que logo se negou, pois não apoiava muito esse caminho da música, afinal, queria um filho “doutor”. Assim, continuei meu aprendizado na cromática até que com as economias do dinheiro da merenda escolar, consegui comprar uma diatônica. Outra alegria imensurável!
Inicialmente, não fiz uma opção pela cromática ou pela diatônica, dedicando meus estudos a ambas. Algum tempo depois que fiz uma escolha pela diatônica, pois me identifiquei com sua sonoridade, com sua exigência em produzir os semi-tons via articulação vocal/bucal, além de achar que ela se adaptava melhor ao estilo musical com o qual iniciei, o blues. A partir de então, minhas experiências/estudos autodidatas, se dirigiram à diatônica.
O Cromatismo veio muito depois. Em 1999, tive a oportunidade de participar do Workshop sobre o cromatismo, em Juiz de Fora, ministrado por Otavio Castro. Esse que tanto ouvia falar, no seu brilhantismo com o instrumento e no seu pioneirismo (no Brasil) com o cromatismo, se tornou o maior incentivador desse meu percurso. Um novo mundo musical se abriu, seja pelas aulas que foram essenciais para a minha evolução com o instrumento, seja pela amizade que iniciamos.
O “cromatismo na harmônica diatônica” aguçou não apenas a minha evolução nos estudos práticos – isto é – na execução dessa técnica no instrumento, mas também sua aplicação no ramo da Lutheria (por isso o meu pioneirismo na customização de harmônicas para fins do cromatismo). Poder aplicar a extensão completa de 12 notas da escala cromática na diatônica é muito expressivo de suas potencialidades, mas que muitas vezes é tratado de modo inferior, se comparado a outros instrumentos musicais.
BC -  Conte-nos um pouco sobre sua experiência na Universidade Bituca, em Barbacena – MG. Como foi ser aluno de grandes nomes como Ian Guest e o desafio de inserir gaita diatônica nas suas aulas práticas?

RD - Falar da minha passagem pela “Bituca – Universidade de Música Popular Brasileira” é sempre emocionante. Para quem ainda não tem notícias, há que se ficar atento a este espaço de formação.
Trata-se de uma escola de música popular brasileira, no interior de Minas Gerais (Barbacena), que presentifica as riquezas mineiras (seja pela sua estrutura arquitetônica, seja pela mata atlântica que a cerca), e o que é mais importante: onde os mestres são músicos renomados e em plena atividade profissional.
Em funcionamento desde 2004, a “Bituca” tem como padrinho e inspirador Milton Nascimento, o que já nos dá uma idéia da grandiosidade e seriedade dessa escola.
E foi justamente nela, em 2004, que iniciei a minha mais importante experiência na música, ao ingressar como aprendiz. Espaço comprometido com a boa música brasileira, seus ritmos e compositores, trás uma concepção de aprendizado diferenciado, apostando numa formação integral, coletiva e criativa, ao mesmo tempo em que respeita e destaca as singularidades de cada aprendiz. Escola que retoma as raízes e a originalidade da música brasileira.
Nela tive a oportunidade de freqüentar aulas de história da música brasileira, percepção musical, musicalização pelo método Kodaly, prática de conjunto, preparação para o palco, produção, ética, formação de grupos, harmonia, arranjo, improvisação e leitura. Uma efervescência musical!
Quando falo da minha entrada e percurso na “Bituca” não posso deixar de destacar o importante papel ocupado pela harmônica. Isso por que, mesmo não tendo o ensino desse instrumento na escola, posso dizer que consegui iniciar um processo de seu reconhecimento. Além de ter realizado a seleção utilizando uma gaita em C aliada ao recurso do cromatismo, fazia questão de lançar mão desse instrumento no decorrer do curso, seja nas aulas teóricas, seja nas práticas, inclusive nas práticas de conjunto. Nesses momentos, demonstrava que a gaita deve e pode ser considerada como um instrumento de sopro, como qualquer outro.
Mesmo tendo cursado flauta doce soprano (concluído em 2007), era reconhecido como o “músico da gaita”, o que para mim é um importante analisador da valorização do instrumento. Tal dimensão, somada aos encontros musicais com mestres extraordinários, me faz afirmar que a experiência na “Bituca” foi ímpar e decisiva na minha vida.
Nessa experiência, não posso deixar de ratificar a importância do encontro com o mestre húngaro-mineiro Ian Guest, Gilvan de Oliveira, Guido Campos, Ivan Correâ, Cleber Alves, Babaya, dentre outros, e ainda com o grupo Ponto de Partida.

BC – Você participou do Clube do Choro de Juiz de Fora por dois anos, como você interpreta a inserção da diatônica em estilos brasileiros?

RD - Considerando que a diatônica, até recentemente, esteve relacionada apenas ao blues, rock e country, efeitos de um processo histórico, vejo a inserção desse instrumento em estilos brasileiros como um grande avanço – seja em relação ao próprio instrumento, seja para o instrumentista.
Não se trata de um julgamento de valor entre esse ou aquele estilo musical, pois acredito que há espaço e positividades em todos eles. Que estilo se dedicar, aí já é uma escolha pessoal.
Por isso reconhecer avanços na inserção da harmônica em estilos brasileiros fala de buscar nossas raízes, desenvolver técnicas que nos possibilitem explorar as variadas e diferenciadas potencialidades do instrumento. Nesta perspectiva, tal movimento veio reforçar a técnica do cromatismo. Além, de abrir novos horizontes no meu trabalho como Luthier, pois o instrumento/instrumentista passa a exigir outros ajustes, afinação e modelos de customização.
Por tais motivos, vejo como uma evolução no meu percurso como músico tal uso do instrumento. Inicialmente, em 2000, no projeto “Bossa Nova, Samba e Poesia” (com Arnaldo Huff), momento em que realmente me dei conta da importância de levar à frente a execução da gaita para qualquer estilo musical e em qualquer tonalidade – haja vista, que já nessa época, usava apenas uma tonalidade, uma diatônica em C para toda e qualquer música.
Nesse projeto, a complexidade das harmonias e das melodias –tecnicamente falando – trouxe novas exigências; com as quais também me deparava nas participações em bandas de Jazz de Juiz de Fora. Época em que comecei a frequentar, como ouvinte, o Clube do Choro/JF; até que ouvi de um dos integrantes: e aí, sua cromática sem chave só gosta de Blues, Jazz e Bossa Nova?
Tomei a pergunta como outro desafio, nunca tinha tocado um choro. Não posso deixar de lembrar que nesse momento as aulas com Otavio Castro em muito ajudaram a me apropriar desse estilo, que até então era novo para mim, enquanto instrumentista. E ainda, as intermináveis prosas e ensinamentos de um grande amigo Ricardo Martins (guitarrista e compositor juiz-forano).
Tenho a convicção de que a minha participação no Clube do Choro de Juiz de Fora/MG, por 2 anos, trouxe importantes contribuições ao meu desenvolvimento profissional. Lá, a partir da aproximação com músicos de intensa seriedade e competência, aprendi muito! Além da possibilidade de expandir a visão sobre a gaita, pois até então era uma novidade a diatônica nesse grupo. Ficavam todos surpresos ao me verem tocar com apenas uma gaita afinada em C, sem chave, nas diversas tonalidades que o repertório pedia.
Desde então, não parei mais de unir a minha diatônica à música brasileira, de boa qualidade. Posteriormente à Universidade de Música Popular Brasileira – “Bituca”/MG, ingressei na Escola Portátil de Música/UNIRIO/RJ, onde também estudei com importantes nomes da música brasileira, como: Luciana Rabelo, Cristóvão Bastos, Álvaro Carrilho, Bia Paes Leme, Maurício Carrilho, Oscar Bolão.
Para finalizar, vejo a harmônica (não só a diatônica) como um instrumento de grande brasilidade, por exemplo, sob o ponto de vista da divisão rítmica. Nada de nacionalismos a esse instrumento universal e de longo alcance, apenas uma incursão pela sua musicalidade, que nos exige criatividade e “jogo de cintura”. Assim, o dinamismo desse instrumento transborda, produzindo curiosas combinações musicais, sem anular ou sobrepor esse ou àquele estilo. E quando digo brasilidade referimo-me também aos diferentes modos de vida, sotaque, culinária que encontramos Brasil afora, então o correto seria brasilidades…diferenças que se conjugam. Não podemos ver assim a harmônica? Por que restringi-la? Seria negar e mortificar a sua potência!
BC – Sabemos que você leciona harmônica aí no RJ, como você trabalha os alunos? Acredita ser importante já apresentar todas as notas de uma vez ou acredita que os sobressopros e sobreaspirações devam ser ensinados só depois?

RD - Essa questão da transmissão do conhecimento musical é bem interessante…isso por que noto que muitos professores de música (não restrinjo apenas a gaitistas) acabam por dificultar o processo de aprendizado do aluno.
Um importante aspecto a se apontar: acredito que para ser professor há que se ter interesse pelos caminhos didáticos, além de ser manter vivo e pulsante o desejo de saber (sobre aquilo que se pretende transmitir).
Considerando o meu entusiasmo pelo aprendizado e pela sua transmissão, decidi investir em aulas de harmônicas. E desde então sei do meu compromisso ético com os meus alunos. Um compromisso com a passagem de informações das mais elementares do aprendizado até os mais avançados, com clareza e objetividade.
Noto que a há uma irresponsabilidade da grande parte dos professores de gaita. Isso por que não ensinam a música de forma correta, e aqui me refiro à parte teórica, como: leitura, percepção, solfejo, improvisação, harmonia, ritmo, entre outros. Ensinos estes essenciais e que se não transmitidos (aliados à prática do instrumento), deixarão lacunas no aprendizado do aluno, que não poderá alcançar todo o potencial criativo do universo musical.
A tablatura, do meu ponto de vista, limita o aluno. Sendo mais incisivo, acredito que ela faz do aluno um “analfabeto” musical/teórico, haja vista que restringe a sua comunicação com outros músicos, de outros instrumentos. A tablatura para gaita, por exemplo: -6 (seta para baixo), + 6 (seta para cima), é uma comunicação que só é entendida entre os gaitistas.
Diante disso, está mais que na hora de prestarmos atenção na forma como se transmite os ensinamentos da harmônica, considerando certa “enganação” que está posta no mercado. E mais, somos responsáveis pela visão que se constrói do gaitista, socialmente e musicalmente. Portanto, uma formação falha nos deixa à margem do reconhecimento, enquanto músicos.
Respondendo à segunda pergunta…nas minhas aulas, independente do objetivo do aluno e seu estilo musical, apresento para o mesmo a extensão completa do instrumento (isto é, todas as notas), posto que isso pertence a gaita e deve ser considerado. Desta forma, não trato as notas “over-draw”/sobreaspiração e “over-blow/sobressopro” como algo à parte, no sentido de uma necessidade de aprendizado só adiante, ou seja, posteriormente. Aliás, não apresento as notas aos alunos dando “nome aos bois”, e sim dividido em oitavas. Posso dizer, por experiência própria, que essa didática vem desmistificar a questão da dificuldade, que por vezes, paralisa o aluno.
Bom, é isso, não abro mão da qualidade e seriedade no trabalho de ensinamento seja de diatônicas, cromatismo, teoria musical, seja na lutheria.

BC – Onde surgiu o seu trabalho com lutheria de harmônicas e o desenvolvimento de pesquisas para facilitar a execução cromática do instrumento? Seu trabalho de lutheria é conhecido pela sofisticação técnica empregada, onde você buscou referências para a elaboração deste tipo de trabalho?

RD – O disparador disso tudo foi o meu interesse pela estrutura física do instrumento, que já estava colocado desde o primeiro momento com o mesmo, mas que, inevitavelmente, foi tomando corpo na medida em que as gaitas com as quais eu estudava e tocava precisavam de manutenção.
E com a harmônica não foi diferente ao que costumava ser com os outros objetos que passavam pelas minhas mãos. Tinham um destino traçado: desmonte de peças, tentativas de novos arranjos, algumas perdas e restaurações. É o que entendo por uma tendência à pesquisa, à construção de novos conhecimentos, à produção, que sempre me acompanharam. E não seria a harmônica, justo ela, que escaparia desse circuito!
Assim, aquela primeira diatônica – com palhetas trincadas – e as posteriores, começaram a ser materiais de experiências. Tornava-se imperativo, por variadas questões, debruçar-me sobre as condições físicas do instrumento e, consequentemente, ao conhecimento do seu processo de produção, dos materiais utilizados, dos caminhos que poderiam prolongar a sua vida útil. Questões essas que foram dando ensejo a outras…afinação, regulagem, customização, cromatização.
Bom, e o que parecia um “quebra-galho” para benefício próprio, foi se estendendo aos amigos e tomando novos contornos, que aliado a muitos estudos (autodidata), pesquisas e experimentos, abriu-se para mim como um campo de trabalho. E o que é melhor: um campo muito potente e de grande importância para os rumos da harmônica, universalmente. Além, acredito, de poder deslocar a visão da gaita como um instrumento de menos-valia, à margem de todo um processo musical, haja vista sua escassa inserção em meios de formação/mercado (seja acadêmico, profissionalizante, seja em orquestras, entre outros).
Decido pela Lutheria e diante da oportunidade de fazer um curso intensivo de customização com o Gaspar Vianna (um dos mais gabaritados na área de manutenção e customização de harmônicas no Brasil), não pestanejei. Abandonei um emprego na época e embarquei para o Rio de Janeiro…a escolha pela Lutheria estava feita!
Daí por diante não teve recuo, pelo contrário, é uma escolha – que apesar das dificuldades – renovo cotidianamente.
Outro aspecto de extrema importância na evolução do trabalho que desenvolvo é a permanente interlocução com o cliente, para que a customização e a otimização do instrumento sejam compatíveis com o seu estilo musical e com suas expectativas/objetivos. E ainda, o alto nível de exigência dos gaitistas para quem trabalho como Luthier, como Otavio Castro, Pablo Fagundes, Julio Rêgo, Prot, Jefferson Gonçalves, André Carlini, entre outros. Isso exige um trabalho artesanal, detalhado e perfeccionista.
Assim, com anos de dedicação e pesquisa em lutheria, aliada ao permanente aperfeiçoamento teórico-técnico, tento realizar um trabalho o mais sofisticado e adequado às diferentes demandas dos instrumentistas. O que culminou no meu pioneirismo, no Brasil, na especialidade da customização de harmônicas para fins do cromatismo (ou seja, adaptação da gaita diatônica em cromática); além de ter desenvolvido o recurso da “manta magnética” nesse instrumento.
Sigo com a perspectiva de elevar a qualidade do instrumento, e é para isso que dedico tantas horas em pesquisas/estudos e experiências…e assim, tenho construído alguns projetos, de uma harmônica livre de tantos problemas, como os atuais. Projetos estes que, por enquanto, guardo a sete-chaves, mas cujo objetivo é de que se concretizem o mais breve possível.

BC – Quais as qualidades que você acredita que uma harmônica deva ter para se prestar ao cromatismo?

RD - Essa pergunta é fundamental e muito tenho pensado sobre o assunto, considerando os mais variados problemas que apresentam as harmônicas, mesmo as vindas de fábrica. Como não cabe aqui enumerar os pontos frágeis no processo de produção desse instrumento e, consequentemente, seus efeitos no produto final, gostaria de considerar aspectos importantes não só para o direcionamento ao cromatismo, mas de um modo mais geral, isto é, a toda e qualquer harmônica.
A afinação, dentre outras questões, é um dos aspectos problemáticos e bastante relevantes, considerando que compromete o desempenho e a percepção auditiva do instrumentista e a sua relação com outros músicos/instrumentos.
A grande parte das harmônicas que chegam às minhas mãos, saídas de fábrica ou não, apresentam suas frequências sobre as variantes 445 a 449Hz. Vale destacar que para o blues é preciso que tenhamos uma variante das freqüências (Hz) de uma nota para outra – para que os acordes soem uníssonos – mas nesse caso, falo de pequenas variantes, e não intervalos tão relevantes como os citados acima (considerando que a partir de tais frequências já podemos considerar como uma nota desafinada, isto é, fora do padrão universal de afinação). E ainda, devemos ter clareza de que a gaita é um instrumento melódico, e não um instrumento harmônico, sendo que neste último é prioritário a sonoridade uníssona dos acordes.
As variações das quais me referi podem parecer irrelevantes para alguns, mas é só aparência, pois causam diferenças vastas no som da música. Diante disso, é sempre necessário um ajuste na freqüência das harmônicas, a fim de garantir a sua qualidade sonora.
E prestem atenção, a questão da afinação é apenas um dos pontos, há muitos outros.
No caso das harmônicas para fins do cromatismo, além de um trabalho intenso no sentido de reparar os aspectos problemáticos (que são das harmônicas, em geral), faz-se necessário ajustes muito específicos.
Desta fora, posso dizer – depois de anos de dedicação aos estudos, pesquisas e experiência prática – que é preciso que as fábricas invistam mais em profissionais que possam agregar valor ao processo de produção do instrumento – justamente na perspectiva de elevar a sua qualidade. Temos alguns exemplos nesse sentido, mas ainda incipientes.


O Howard Levy montou uma escola virtual de Harmônica e está lecionando através do site. São $60 dólares por 3 meses de acesso, onde o aluno pode inclusive gravar um vídeo em uma webcam com suas dúvidas que o Howard responde via vídeo ou por texto.

O vídeo abaixo explica melhor a situação, parece ser bem interessante.

Mais informações também no site.


Twitter do BC

23nov09

Para quem ainda não viu agora o BC está também no Twitter, a idéia lá é postar notícias mais rápidas com relação à técnica do cromatismo na harmônica diatônica como shows, vídeos e myspaces diversos. Também pretendemos postar não só os assuntos de cromatismo, mas também de música em geral. Assim haverá uma diminuição da quantidade de posts aqui no blog, onde pretendemos colocar apenas assuntos mais específicos e mais aprofundados.

As atualizações do twitter podem ser vistos aqui na lateral direita do blog, mas convidamos você a seguir-nos no seu twitter também.

http://twitter.com/blogcromatismo


duas dicas.

19nov09

Olá amigos, peço desculpas pelo blog estar este período sem atualizações. Mas já estamos organizando novos posts para este fim de ano, aguarde que novidades interessantes estão por vir. Por enquanto vou deixando duas dicas.

A primeira é um vídeo do gaitista belga Tinus Koorn com exemplos das escalas maiores e seu respectivos arpeggios.

Outros exemplos de didática do instrumento podem ser encontrados no seu site Tenhole.com com áudio e partituras.

A outra dica é que visitem o MySpace do amigo Rafael Domingos, já conhecido pela comunidade gaitífera pelo seu trabalho como luthier de gaitas diatônicas, cromáticas e escaletas, mas que apresenta também um belo trabalho na execução do instrumento, muito voltado para o choro.

É isso aí, viva a gaita diatônica e suas diversas formas de ser executada.


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Hoje chegamos com uma colaboração do Júlio Rêgo, grande harmonicista de Aracaju – SE. Ele nos enviou por e-mail um texto muito interessante sobre um capítulo da história da flauta, num período de transição no que diz respeito a construção do instrumento.

É possível ver no texto uma relação muito parecida com o que temos vivido com o surgimento e evolução do cromatismo na diatônica, a questão da afinação, apogeaturas, potencial expressivo, etc…

Fica aqui o agradecimento do blog Cromatismo ao Júlio por este presente. Vamos ver se rola mais adiante de conseguir o texto na íntegra pra colocarmos aqui numa seção de artigos, quem sabe.

P.s.: Teve gente confundindo achando que o texto é do Júlio por um erro de redação minha, o texto que ele descobriu faz parte do livro “METODOS DE FLAUTA DO BARROCO AO SECULO XX” de Laura Rónai.

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Nas últimas décadas do século XVIII a flauta já era parte da orquestra, e os fabricantes de flauta começaram a tentar expandir a possibilidade de execução de semitons cromáticos. Para isso, e para eliminar o problema das combinações digitais em forquilha, começaram a pensar em criar orifícios específicos para cada semitom. Como, porém, o número de dedos do ser humano é limitado, havia a necessidade de se introduzirem chaves.

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Numa flauta barroca, que exige freqüentemente dedilhados de forquilha, nem sempre é possível executar trilos de semitom, e mesmo os de tom inteiro podem ser traiçoeiros. Muitas vezes o único recurso plausível é fazer longa appoggiatura com a nota “certa” (o semitom) e em seguida trilar com a nota “errada”, o tom inteiro. Assim cada trilo tem uma cor única (ou uma desafinação característica, se pensarmos dentro de parâmetros modernos!), e é muitas vezes impossível fazer uma seqüência de trilos com igual qualidade de timbre. Devemos lembrar também que a função do trilo no Barroco não é a mesma do que nos séculos subseqüentes. As dissonâncias causadas pelo trilo eram sua principal razão de ser. Com o advento das chaves, a regularidade passa a ser possível e desejável.

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O tubo [da flauta barroca], por exemplo, ao invés de ser cilíndrico, assim como na flauta atual, era cônico. Isto produzia uma desigualdade entre as notas que, ao contrário do que se pensa hoje, era considerada uma vantagem, já que produzia notas com “personalidade” própria. Neste simples fato pode-se perceber a propensão do Barroco de se enfatizar as diferenças, justamente o oposto da era moderna, em que a tendência é a padronização. Quanto ao sistema de chaves, havia de início uma chave apenas, e os orifícios eram cobertos diretamente pela polpa do dedo, o que, se diminui sensivelmente a rapidez de digitação, abre todo um universo de sutilezas sonoras ao alcance dos dedos do intérprete.

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Considero fundamental analisar a desigualdade rítmica em relação à desigualdade sonora. (…) A desigualdade resultante da furação do tubo da flauta do século XVIII faz com que necessariamente as notas se dividam em “melhores” e “piores”. Esta desigualdade sonora explica facilmente a desigualdade rítmica, um traço importantíssimo da música barroca, principalmente francesa. Existe uma tendência instintiva de se apoiar as notas “boas” e de se tocar com suavidade as notas “ruins”, que faz com que uma escala barroca nunca soe como o “colar de pérolas” tão almejado pelos músicos atuais.

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O século XVIII é um período em que o temperamento igual é ainda uma novidade, que praticamente prepara o advento do período seguinte, o Classicismo. A riqueza muito maior de possibilidades de modulação, razão de ser do temperamento igual, foi conseguida graças a uma perda do poder expressivo gerado pela diferença de cada nota dentro de cada escala. (…)
 
É apenas com a adoção do temperamento igual que as tonalidades passam a ser equivalentes, e as escalas, regulares. E é devido às necessidades de ampliar o som e de homogeneizar as escalas que os fabricantes irão desenvolver os instrumentos modernos. Se, em termos de técnica flautística, o século XVIII almeja a irregularidade (e não é à toa que este período veio a se chamar “Barroco”) e a expressividade, o século seguinte irá em busca da fluência e do volume sonoro.

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Muitos flautistas se opuseram frontalmente a uma mudança de concepção que, como dizia Cramer, vinha substituir a estética do “fort bien” pela do “bien fort”. No famoso Prefácio ao seu método de 1851, em que ataca vigorosamente a nova flauta de Boehm, Tulou observa “ser de uma importância fundamental conservar em cada instrumento a diferença de timbre que lhe é peculiar; pois é esta diferença que constitui, em grande parte, o charme da música”.
 
(…) Fürstenau, em seu Kunst des Flöten Spiels, deixa clara sua oposição à flauta Boehm, que acusa de ter um som monótono. Os defensores da flauta de sistema simples não estavam dispostos a abrir mão da maior variedade tímbrica do instrumento antigo apenas para ganhar afinação mais precisa, um escopo maior de dinâmica e a fluidez técnica que a flauta Boehm prometia.
 
(…) Assim como colecionava detratores, naturalmente Boehm atraía também partidários fanáticos pelos seus novos modelos de flauta. Paul Hippolyte Camus, por exemplo, reivindica a primaziaem recomendar fervrosamente este novo instrumento:
 
        [...] todas as vozes da flauta Boehm soam límpidas e naturais, possuem maior volume, maior força, maior doçura, maior segurança que todas as outras flautas utilizadas; e permite ao executante certos contrastes e nuances que não podem ser obtidos nos outros instrumentos.

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O fato da flauta barroca não ter as mesmas possibilidades de dinâmica afeta a interpretação sob vários aspectos, assim como afeta o próprio ensino do instrumento: os contrastes são menores e dependem muito mais do uso apropriado de inflexões de tempo e variações de cor. O intérprete moderno que quiser ser o mais fiel possível às intenções do compositor barroco deve, portanto, prestar especial atenção ao equilíbrio entre as vozes, e deve tentar não abusar de efeitos de dinâmica, explorando ao máximo os outros recursos expressivos da flauta, tais como inflexões de tempo, variação de articulação, respirações judiciosamente escolhidas para enfatizar as intenções do compositor, etc…

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A ausência de chaves e conseqüente abundância de dedilhados de forquilha são fatores fundamentais para a determinação da duração das appoggiaturas que antecedem os trilos. Assim, o trilo cadencial barroco, que em geral se inicia com uma appoggiatura superior forte e longa, seguida de alternação rápida e piano das duas notas, não é assim apenas por razões harmônicas, ou porque os compositores decidiram que desta forma soava melhor (o que inegavelmente é verdade!), mas porque, na maioria das vezes, esta era a única maneira de serem executados em um instrumento da época. Portanto o flautista que toca uma flauta barroca não precisa aprender regras sobre os trilos: essas regras se impõem automaticamente.


Aê, se liguem, quem estiver no sul do país, é claro. 

A partir de amanhã, dia 19, até Domingo, dia 25, acontecerá na cidade de Blumenau um evento que pretende unir os conhecimentos de astronomia e música. É a “Semana de Ciência e Tecnologia de Blumenau”. A Hering Hamônicas está envolvida na organização e colocará a disposição do público duas exposições chamadas: “85 anos da gaita no Brasil” e “Cromatismo na Gaita Diatônica”, que acontecem durante todo o período do evento das 9h as 18h, o material estará disposto no Mausoleu, um importante ponto turístico da cidade.

Destacamos também os Workshops dos gaitistas Jefferson Gonsalves (‘A gaita na música nordestina’ dia 23 as 14h30) e Otavio Castro (‘O cromatismo na gaita diatônica’, dia 24 as 16h) além da palestra do físico, gaitista e desenvolvedor de instrumentos, Fabrício Casarejos com o tema “Acústica musical aplicada ao desenvolvimento de instrumentos musicais”, dia 24 as 15h, onde ele falará de sua pesquisa que já foi comentada em entrevista com ele aqui mesmo no nosso blog ‘Cromatismo’. Além de shows, é claro, nos respectivos dias dos workshops de cada harmonicista, as 19h.

O evento conta também com outras esposições na área da ciência, além de exibição de filmes temáticos e observações astronômicas.


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A notícia já está velha, o pessoal de BH já descobriu e divulgou, mas mesmo assim é bom divulgar mais um pouquinho. O gaitista e luthier Joe Filisko estará em BH, mais precisamente na UFMG, entre os dias 6 e 8 de Outubro para ministrar dois workshops, um para gaitistas iniciante e outro para intermediários.

O destaque sobre a carreira de Filisko está em ter sido o luthier que, trabalhando junto de Howard Levy, ajudou a desenvolver técnicas de lutheria para facilitar o cromatismo.

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Old Town School of Folk Music – Workshop
Professores da Old Town School of Folk Music (Chicago/EUA) visitarão a Escola de Música e darão workshops nos dias 6 e 8 de outubro. Nível iniciante e intermediário. Os professores Joe Filisko (Gaita harmônica) e Steve Doyle (violão/guitarra) são especialistas em Blues. (Saiba mais)
Maiores informações: walenia.silva@gmail.com

Fonte: http://www.musica.ufmg.br/

Workshop 1 – 6 a 8 de Outubro, R$ 30, 19:00 a 20:15 – Iniciantes (pré requisito = gostar de blues)
Workshop 2 – 6 a 8 de Outubro, R$ 30, 20:30 a 21:45 – Intermediário (pré requisito = domínio do instrumento)

(via gaitabh.blogspot.com)


Pesquisando um pouco no Youtube achei estes dois camaradas que estão se dedicando ao cromatismo, o primeiro na Espanha e o segundo na França.



charlier

O gaitista francês Sebastien Charlier mudou o site dele. Está mais interessante pois dá pra ouvir mais músicas que o anterior, mas o chato é que só tem versão em francês.

Deu pra achar também um teaser do novo disco dele, deste ano, com uma abordagem mais Rock Fusion.


O gaitista Rafael Domingos (MG/RJ) já é reconhecido no mundo da lutheria de harmônicas por seu trabalho em prol do cromatismo, trabalhando para tornar a harmônica diatônica um instrumento universal. O Leandro Ferrari (BH), como colaborador do jornal ‘O Debate’, disponibilizou um texto sobre o trabalho deste grande luthier em sua coluna.

Eis o link.